Sobre

Ela, 24.

Nasci de uma concha de caracol, bem no meio da terra úmida – que é o meu país – . Tenho cabelos escuros e curtos, às vezes uso laço de fita na cabeça para lembrar da infância; tenho dois olhos brilhantes como os da aranha e me visto sempre do mesmo jeito. Sou fria como a porcelana de um vaso chinês; sou sombria e triunfo como a dança das valquírias sobre os mortais.

Tento experimentar as surpresas escondidas no cotidiano, sem jamais predizer meu futuro; não ofendo a minha própria liberdade de vir a ser, muito embora me considere uma alma muita antiga e que já conhece alguns dos caminhos percorridos.
Não tenho a pretensão de dizer que na minha vida a calma seja uma luxúria desnecessária, apenas que ela cai com um peso enorme sobre mim e que me move em direção à escrita.

Gosto da arte que se apresenta estranha e selvagem a mim, de me sentir acoada por ela. Prefiro os escritores que triunfam sobre o mundo, daqueles que usam as palavras como arco e flecha e rasgam o céu estrelado das madrugadas, provocando um delicado eclipse… Eles às vezes são surreais ou tão humanos quanto percebe-se pelo brilho da carne morna que cintila do encadeamento das palavras desenhadas no livro.

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